Felicidade, ou Morte
Uma das vantagens de ter estudado mais afundo um período histórico (e ler textos que foram registrados porém esquecidos) é que podemos acessar, algumas raríssimas vezes, algo que o tempo presente terá esquecido, textos de arquivo mesmo.
Numa coleta de artigos culturais dos anos 1970, vi o crítico narrar do eterno dilema da cultura brasileira, de não sabermos afinal qual será o melhor dos nossos romancistas, se será José de Alencar ou Machado de Assis.
Ou seja, 60 anos após a morte do autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas era possível ainda que um jornal respeitável colocasse isso como uma questão comum, enquanto hoje nos parece como comparar o tamanho da Lua e o de Urano, dois pontinhos diferentes no nosso céu.
E pondero se o mesmo não terá ocorrido no velho dilema Chico Buarque versus Caetano Veloso, se ainda é posta em dúvida por uma ignorância contemporânea posteriormente muito óbvia, os séculos todos seguintes dando risadas a respeito de nosso mau gosto.
(clássico é clássico)
Não sei, no entanto, se nos últimos anos a balança pendeu mais para um lado do que o anterior, mas acho que se colocarmos o brilho apolíneo do melhor dos bons moços, o mais aprumado do idioma, contra a liberdade selvagem de quem se dispõe sempre a errar pois não existe outra forma de existir, creio que no futuro todos saberão que afinal de contas e por todo esse tempo o melhor deles era o Tom Zé.
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O grande sucesso contemporâneo do “Vai (menina amanhã de manhã)”, o opus de Tom zé da felicidade, talvez se dê por hoje em dia termos dificuldades em aceitar descrições homogêneas e mansas de qualquer dos nossos sentimentos, que dizer desse objetivo supremo da nossa existência (declarado como tal até na fundação política dos Estados Unidos: the pursuit of-)?
Precisamos da felicidade, ou ao menos conseguirmos vislumbrá-la, mas todo racional hoje nos leva a crer que se trata de uma ficção ou impossibilidade. Para soar convincente, é preciso que no mínimo ela nos chegue estranha, com qualquer impacto não-banal, pois o panorama que vemos é de que como é inescapável a INfelicidade. Daí precisemos que ela meta medo, que dela não conseguiremos fugir (o que nos parece já uma melhora de nunca a alcançarmos) e tudo mais, uma inversão que traz vida.
Gregório Duvivier até cantou para os que o ouvissem, no início da pandemia, para que, enclausurados, não deixemos de acreditar nisso, algo que talvez seja ficção, uma bonita ficção, mas como a ficção é algo do mundo, podemos entendê-la sim como pelo menos parcialmente real.
(estará o arame suficientemente farpado?)
Tom Zé nos revela seu pensamento ao compô-la, a da sua realidade de artista vivendo na ditadura, e da imagem que se queria do país no mundo, um país alegre e sem conflitos: a felicidade, então, seria a imposição (inescapável) de um molde existencial-obediente interessante ao patronato e aos milicos.
No entanto, como clássica é a obra em que novidades surgem nela mesma escutando pelas décadas, eis que a música daqui de mais perto do fim do mundo, aquecimento global torando e cercado de idiotas idólatras de bilionários e com o fascismo re-normalizado, começa a apresentar uma nova possibilidade, da felicidade descrita na letra como uma substituição palatável para o papel da Morte, que é a Morte que vai desabar sobre os homens, que na hora ninguém escapa, debaixo da cama ninguém se esconde, a morte vai desabar sobre os homens, que é ela que mete medo, que ela que fecha a roda, que é dela que não tem saída, de cima de bando ou de lado, menina olhe pra frente, menina todo o cuidado, não queira dormir no ponto etc. O encaixe é total, e pondero que se a letra como tal foi aprovada pela censura e não precisou ser riscada em substituição ao ósseo vocábulo original, só posso ponderar é que o compositor trazia a realidade institucional de sua época dentro da própria cabeça.


